Clima e Floresta
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Protocolo GHG incentiva realização de inventário de emissões
Maura Campanili
Rachel Biderman, coordenadora adjunta do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces). (Foto: Divulgação/GVces)Lançado em maio último, o Programa Brasileiro Corporativo de Gases de Efeito Estufa disponibilizou para as empresas brasileiras o Protocolo GHG (Greenhouse Gás Protocol), uma metodologia internacional que permite a realização de inventários de gases de efeito estufa, para que possam controlar sua emissão e colaborar para minimizar o aquecimento global. Rachel Biderman, coordenadora adjunta do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (GVces), instituição responsável pela difusão do protocolo no Brasil, fala sobre a importância da iniciativa, que já conta com a adesão de 24 grandes empresas no país*, entre a Petrobras, o Bradesco e o Banco do Brasil.
A Natura, que assumiu em 2007 o compromisso de se tornar Carbono Neutro, também está na entre as primeiras adesões. Isso significa dizer que todas as emissões decorrentes das atividades da empresa em toda a sua cadeia de negócios, da extração da matéria-prima ao descarte das embalagens, serão reduzidas ou compensadas. Para avaliar o real impacto das suas atividades, a empresa utilizou os padrões do GHG Protocol. A partir desse trabalho, foi identificado um potencial para baixar em 33% os gases gerados em sua cadeia de negócios ao longo dos próximos cinco anos.
Advogada e doutoranda em administração pública e governo aborda, Rachel aborda, ainda, outro serviço recém-lançado pelo GVces, o Catálogo de Produtos e Serviços Sustentáveis, site que pretende ajudar o consumidor a fazer suas escolhas levando em consideração a variável socioambiental.
Clima em Revista – O que é o Protocolo GHG e qual o papel do GVces na sua implantação no Brasil?
Rachel Biderman – É um programa que transfere conhecimento para a empresa de como fazer inventário de gases de efeito estufa. O conteúdo foi desenvolvido pelo World Resources Institute (WRI) e pelo World Business Council Sustainable Development (WBCSD), cujo braço brasileiro é o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). No Brasil, o Ministério do Meio Ambiente também é parceiro. O GVces vai ser o facilitador e está sendo treinado para ser treinador. Somos a organização que traz empresas para o protocolo, trabalha o conceito e a importância da realização do inventário. Para tanto, vamos realizar workshops, para os quais convidaremos as empresas. Atualmente, já temos 24 empresas de todos os setores.
Clima em Revista – Porque a existência desse instrumento é importante para as empresas brasileiras?
Rachel Biderman – Há um número limitado de empresas no Brasil fazendo inventário de emissões e essa é a primeira condição para que se possa fazer algo pelo clima. Precisamos criar uma cultura de inventário. A resistência das empresas é o medo do depois, de ter que fazer algo sobre isso, já que nossa intenção é que elas publiquem os dados. A grande vantagem, porém, é ser uma atitude voluntária. As empresas que aderem estão se antecipando a uma coisa que um dia, certamente, vai ser lei. Com o inventário, elas também identificam oportunidades no mercado de carbono e sairão na frente. Fazendo um inventário público, as empresas também estarão se protegendo, pois os que tiverem conseguido diminuir emissões possivelmente vão poder usar isso, quando a obrigação de redução virar lei. Algumas dessas empresas também estão no Índice Dow Jones de Sustentabilidade (DJSI, na sigla em inglês) e no Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e poderão pontuar e isso se refletir na sua entrada na carteira. Há, ainda, bancos que não financiam quem não tem inventário de emissões. Algumas empresas que aderiram já fizeram inventário e querem usar o programa para tirar dúvidas.
Clima em Revista – Qual o principal benefício para a sociedade das empresas realizarem inventários de emissões?
Rachel Biderman – Os benefícios vêm com os passos posteriores ao inventário, que são o estabelecimento de metas de redução de emissões, plano para reduzir e a comprovação da redução.
Clima em Revista – E como é possível medir esses resultados?
Rachel Biderman – O Protocolo GHG é a metodologia mais usada no mundo para fazer o inventário, que pode ser refeito periodicamente. Na Europa, onde as empresas, por conta das metas de Quioto, são obrigadas a realizar inventário, ele já virou rotina. Apenas a França tem um método próprio e não utiliza o GHG. O princípio é: medir para conhecer, conhecer para mitigar. A diferença do inventário GHG nas empresas é que olha para o chão de fábrica, para a realidade do dia-a-dia. Os inventários feitos pelos países como um todo seguem a metodologia do IPCC, que olha valores agregados e traz um resultado aproximado.
Clima em Revista – A metodologia foi adaptada à realidade brasileira?
Rachel Biderman – Ainda não. Não há, por exemplo, metodologia específica para setores como silvicultura, agricultura e biocombustíveis, os setores mais relevantes para o Brasil. Teremos que fazer isso e vamos iniciar esse processo em 2009. Alguns fatores de emissão também precisam ser desenvolvidos para a realidade brasileira, pois indicadores como o clima influenciam no resultado.
Clima em Revista – Como as empresas podem saber mais sobre o protocolo?
Rachel Biderman – A metodologia está na internet (www.ghgprotocol.org) e é gratuita. Por enquanto, está totalmente em inglês, mas pretendemos traduzir alguns documentos para o português. Além disso, temos programado, para agosto, um evento aberto em São Paulo, na Cetesb, para quem quiser conhecer o sistema.
Clima em Revista – Passando das questões ligadas às empresas para o cidadão comum, como o consumo influi nas questões ambientais?
Rachel Biderman – Olho o consumidor de duas formas: o institucional, como governos e empresas, que têm um grande poder de compra e impacto no mercado, e a ação individual de cada um. Hoje já existe informação suficiente sobre os impactos do sistema produtivo no meio ambiente, no entanto, apesar do cidadão ter consciência dos problemas, ainda não faz ligação, pelo menos no Brasil, entre suas compras e o impacto ambiental que causa. Mas isso é uma questão de tempo, ainda mais que cada vez mais o movimento pela sustentabilidade ganha força e muitas empresas estão se mobilizando para oferecer produtos menos impactantes, permitindo ao consumidor fazer opções.
Clima em Revista – Que tipo de ações o consumidor pode ter em seu dia-a-dia?
Rachel Biderman – Há ações que são de fácil decisão para o consumidor, como consumir papel reciclado, lápis com madeira certificada, tela econômica de computador, carro flex. São produtos que estão no mercado com preços competitivos e não causam impacto em seu cotidiano. Outras são mais difíceis de internalizar, por ter impactos financeiros e nos costumes. Por exemplo, defender a taxação dos combustíveis para se investir em transporte público, como já acontece na Inglaterra, ou abrir mão de um carro grande e potente por um econômico e comprar menos roupas e acessórios da moda. Tem gente disposta a isso, mas ainda é a minoria da minoria e enfrenta dificuldades, como o ciclista, que além de lidar com o desrespeito no trânsito, não tem onde estacionar a bicicleta.
Clima em Revista – Qual o impacto dessas ações para mudar o mundo?
Rachel Biderman – O poder do indivíduo sozinho é limitado. Vai depender de uma conjunção de fatores. Em parte, isso acontece com o esforço de educação ambiental, que tem mais de uma década no Brasil. As novas gerações são mais conscientes e fazem novas opções de vida mais facilmente. No entanto, quando se fala de mudanças climáticas, os esforços precisam ser maiores se quisermos reverter a tendência crítica para o clima. Precisamos de políticas públicas e da participação de empresas e do setor financeiro, que é fundamental. Nesse sentido, precisamos do cidadão consumidor, mas também do cidadão eleitor e do cidadão engajado.
Clima em Revista – O GVces acaba de lançar um Catálogo de Produtos e Serviços Sustentáveis. O que é esse serviço e como pode ser usado?
Rachel Biderman – O catálogo está na internet (www.catalogosustentavel.com.br) e é uma vitrine para produtos e serviços com preocupação com a sustentabilidade. Como não temos como testar cada produto, um dos critérios para a inclusão é a existência de um selo, como o de produto orgânico, FSC para madeira ou o Procel de eficiência energética. Também queremos veicular informações sobre novidades do mercado e realizar cursos online para capacitar compradores institucionais. Vamos ainda dar visibilidade para empresas e governos que tenham política de compras sustentáveis. Um exemplo é o Estado de São Paulo, que acaba de incorporar 150 produtos em sua bolsa econômica de compras seguindo o critério da sustentabilidade. Sem isso, nenhum comprador do Estado poderia optar por produtos sustentáveis.
*Relação de empresas fundadoras do Programa GHG Protocol: Abril, Ambev, Alcoa, Alglo American; Arcellor Mittal, Banco do Brasil, Banco Itaú, Banco Real, O Boticário, Bradesco, Cetesb, CNEC Engenharia, Copel, Energias do Brasil, Ford, Furnas Centrais Elétricas S.A., Natura, Nova Petroquímica – Suzano, Petrobras, Sadia, Suzano Papel e Celulose, TV Cultura, Votorantim Investimentos Industriais, Wal Mart.
Saiba Mais: http://www.ghgprotocol.org/standards/corporate-standard/users-of-the-corporate-standard#noncorporate



