Clima e Floresta

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Novo diretor executivo, Paulo Moutinho fala sobre os 15 anos do IPAM

Maura Campanili

Paulo Moutinho, diretor executivo do IPAM. (Foto: IPAM)

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) completa 15 anos de atividades, marcadas por pesquisas científicas voltadas para promover o desenvolvimento sustentável na Amazônia, através de práticas que demandem menos desmatamento e que busquem a distribuição justa da riqueza da região. Ao assumir a diretoria executiva do Instituto, Paulo Moutinho fala à Clima e Floresta sobre as prioridades da instituição, que incluem pesquisas e ações nas áreas de mudança climática, alternativas econômicas e uso sustentável dos recursos florestais, além do investimento em educação e extensão.  Um dos fundadores do IPAM, Moutinho atuou, nos últimos anos, como coordenador do Programa Mudanças Climáticas do Instituto, que tem tido um papel importante na consolidação de políticas públicas e reconhecimento internacional do papel da Amazônia (e de sua conservação e valoração) nas alterações globais do clima.

Clima e Floresta – O que mudou na Amazônia nestes últimos 15 anos, desde a fundação do IPAM, e como o Instituto acompanhou essas mudanças em sua atuação?

Paulo Moutinho - A esperança! Foi isso que mudou nesta década e meia. Minha visão é bastante otimista, eu sei. Mas, as pessoas, a sociedade, todos estão mais informados sobre os desafios que temos para com a região amazônica. O IPAM contribuiu muito para que essa esperança retornasse. Contudo, uma dúvida crucial ainda permanece. O que queremos para esta região? Mais do mesmo ou algo diferente? Queremo-na mais sustentável? O IPAM vem trabalhando para um futuro diferente para a região. Não para transformar a região em um santuário intocado, mas para que se torne um exemplo mundial de um novo paradigma de desenvolvimento, onde a conservação ambiental possa trazer crescimento econômico, bem estar social e desenvolvimento sustentável. A Amazônia é a ultima região do planeta onde um povo, o brasileiro, poderá colocar em prática este novo paradigma. Ao longo dos últimos 15 anos, o IPAM vem executando pesquisas científicas que sirvam de ferramentas para promover alternativas de desenvolvimento que demandem menos desmatamento e que busquem a distribuição justa da riqueza da região. Não é um trabalho fácil, mas estamos confiantes de que esse sonho será possível.

Clima e Floresta – O fato da diretoria executiva passar a ser exercida de Brasília, e não mais de Belém, foi uma opção estratégica? O que se deve esperar de novo na atuação do IPAM?

Moutinho - A Amazônia é um bem público dos mais preciosos. É um patrimônio dos amazônidas, mas também o é dos brasileiros. E de mais ninguém. Portanto, é algo nacional. O IPAM leva isso em conta. O Instituto mantém várias representações locais por toda a Amazônia, mas não se esquece do caráter nacional da Amazônia. Em parte, é por isto que a diretoria está em Brasília. Contudo, a nossa sede continua em Belém. O coração da instituição está lá. Com a tecnologia atual, integrando tudo, nós estamos gerenciando de maneira integrada todo o Instituto. Se o Diretor está em Brasília, em Canarana no Mato Grosso, em Santarém no Pará, ou em Rio Branco no Acre, já não importa muito. É possível gerenciar tudo em tempo real. Contudo, nossa origem paraense jamais será abandonada. Por isso, decidimos manter a sede em Belém.

Clima e Floresta – Quais foram os principais destaques do IPAM sob o comando do Professor Marcos Ximenes e o que deve ter continuidade?

Moutinho - Para o IPAM foi uma honra muito grande, e uma sorte também, contar com a participação e ajuda do Prof. Marcos durante mais de dois anos em que ele esteve à frente da direção do IPAM. Marcos, pela experiência como reitor da Universidade Federal do Pará, como secretário estadual de Cultura e ainda como administrador e professor exemplar, nos brindou com uma austeridade de gestão que preparou o IPAM para uma nova fase. Uma fase onde os procedimentos administrativos/financeiros ganharam padrão internacional. O Prof. Marcos continua conosco, agora como coordenador de pesquisa. E continua a ser uma fonte de inspiração e ideias em prol da conservação e desenvolvimento da Amazônia para todos nós.

Clima e Floresta - O IPAM está finalizando o seu relatório de atividades referente ao ano de 2009. O que ele contém de melhor?

Moutinho - Integração. O que o relatório traz é uma visão integrada da região através do relato de nossas atividades. Se quisermos mudar o rumo do desenvolvimento da região para algo mais sustentável, sem perder a produtividade e o crescimento econômico, precisamos ter uma visão do todo. É preciso compreender como cada setor na região pensa. Qual é a demanda social para uma organização como IPAM, que produz conhecimento científico e o transforma em ferramenta de transformação e aprimoramento do que queremos para a região. É isto que o relatório revelará.

Clima e Floresta – Em termos estratégicos, a maior mudança na atuação do IPAM nos últimos anos parece ser o enfoque em mudanças climáticas e nos serviços ambientais. Essa tendência deve permanecer?

Moutinho - Mudança climática é o maior desafio ambiental da humanidade. Por isso estamos engajados em pesquisa e ações que visem reduzir o problema e criar alternativas de desenvolvimento de baixa emissão de gases de efeito estufa que aquece o planeta. No entanto, o IPAM não está focado somente nessa linha. É preciso criar alternativas locais para a melhoria da qualidade de vida das pessoas, aumentar a produtividade agrícola das famílias de pequenos produtores e buscar melhores práticas para os grandes produtores, de modo que não avancem mais sobre a floresta. Se quisermos resolver o problema climático do planeta, não será apenas pela redução das emissões de poluentes pela queima de combustível fóssil (petróleo, gás natural e carvão mineral), mas também pela criação de mecanismos de produção de alimentos que seja mais sustentável e pelo uso mais adequado dos recursos florestais, que permita a manutenção da cobertura florestal de modo que possa exercer seu papel de reguladora do clima e do regime de chuvas da região e do continente. Além disso, continuamos a investir em educação e extensão.

Clima e Floresta – Um dos grandes diferenciais do IPAM como organização ambientalista é seu engajamento científico. Como essa característica dialoga com questões de mobilização e políticas públicas? Para quais linhas de ação devem seguir as pesquisas do Instituto?

Moutinho - Ciência é a chave do sucesso do nosso Instituto. Se há uma crise na Amazônia, essa crise começa pela falta de informações qualificadas que possam ser traduzidas em políticas públicas, em ações concretas. O IPAM tem inúmeros exemplos sobre como fazer essa ponte. Construir pontes entre informação científica e ações no chão é nossa marca registrada. Os pesquisadores do Instituto publicam nas melhores revistas do mundo, como Science e Nature, mas não se esquecem de tentar aplicar o conhecimento em algo que possa se transformar numa ação concreta de um governo ou de um setor da sociedade. E seria injusto dizer que isso é um resultado somente da ação do Instituto. Acreditamos num modo de fazer ciência que seja coletivo. Por isso, na maioria de nossos projetos, há inúmeros parceiros governamentais e não governamentais envolvidos. Não há como achar uma solução para problemas ambientais na Amazônia ou para qualquer bioma do país, se nós ficarmos arraigados em modo de operação que não permita a participação de outros parceiros. O problema ambiental da Amazônia é complexo. Portanto, exige soluções, não complexas como muito pensam, mas sim soluções simples. Por serem simples, são as mais difíceis de ser alcançadas e implementadas. Mas seguimos tentando.

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