Clima e Floresta
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Mudanças climáticas já afetam a produção nas reservas extrativistas
Maura Campanili
Manoel Silva da Cunha, presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS). (Foto: Fernanda Preto/IPAM)Presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), Manoel Silva da Cunha é um dos líderes amazônicos que defende a participação dos povos da floresta nas negociações internacionais do clima. Para o seringueiro, nascido no município de Carauari, no Amazonas, no seringal que se tornou a primeira Reserva Extrativista do Estado, em 1997, a Resex Médio Juruá, as mudanças climáticas já prejudicam o cotidiano de quem depende da floresta e dos rios para sobreviver. Aos 38 anos e pai de cinco filhos, Cunha fala nesta entrevista sobre sua trajetória, o papel da reserva extrativista para seus habitantes e como unidade de conservação, e como as alterações no clima estão sendo sentidas e impactando a vida econômica nas comunidades da Amazônia.
Clima em Revista – Como você chegou à presidência do CNS?
Manoel da Cunha – Nasci, me criei e vivi até os 24 anos conhecendo 14 praias do Rio Juruá, onde não havia nenhuma cidade. Com essa idade, tive uma malária muito forte e resolveram me levar para Manaus. Lá, tive uma surpresa muito grande, porque cidade para mim era igual às dos livros, onde não tinha floresta entre uma casa e outra. Fiquei surpreso ao chegar porque encontrei floresta e não me senti tão perdido. Até aquela época, a vida era como queriam os patrões dos seringais, isso já nos anos 80, quando os fregueses - as pessoas que trabalham para eles – eram muito humilhadas. Minha família já estava há mais de 100 anos naquela região e eu trabalhava para um senhor. Mas comecei a participar das reuniões do sindicato dos trabalhadores rurais e do Movimento de Educação de Base e eles começaram a falar para a gente que era possível viver diferente. Era possível se organizar em comunidade, era possível se fortalecer através de sindicato e a gente foi rapidamente gostando da idéia e participando. Em 1992, já era líder comunitário e professor da turma. Aliás, fui professor antes de ser aluno, pois não tive oportunidade de freqüentar banco de escola até hoje. Aprendi a ler com duas irmãs que viajavam três horas para estudar. Como era muito longe, elas só iam três vezes por semana. Nos outros dois dias de aula, elas traziam tarefas para fazer em casa e me alfabetizei vendo elas estudarem. Isso me ajudou muito. O trabalho que fiz como líder comunitário me levou a presidente da Associação, que foi criada com a criação da Reserva. O trabalho na Associação me levou a coordenador do CNS no município e depois a ser eleito secretário-geral e coordenador no Estado, até me tornar presidente do Conselho, em dezembro de 2005.
Clima em Revista – Como vivem os moradores da Resex Médio Juruá?
Manoel da Cunha - Somos em torno de 1.500 pessoas, em aproximadamente 380 famílias. Temos duas atividades que são os carros-chefe: a borracha e os óleos vegetais. Depois vem a agricultura, sobretudo a produção de farinha de mandioca e derivados, como farinha de tapioca, entre outras. Em algumas comunidades, há também produção de mel de abelha, tanto de abelhas nativas quanto abelhas criadas. Já chegamos a produzir nas comunidades até 26 toneladas de óleo, entre andiroba e murumuru. O óleo tem um valor de mercado muito bom no Médio Juruá, porque valorizam a questão da Reserva, da coleta feita de forma garantida para a espécie através do plano de manejo. Chegamos a vender, neste ano, a R$ 22 o quilo. É um produto muito valioso, você produz e vende, o que tem melhorado bastante a qualidade de vida das famílias. Já conseguimos nos organizar no Juruá e em outros locais, a ponto de ter o controle de todo o processo produtivo. Até os anos 1980, o controle era dos patrões, que tanto exploravam o preço baixo da produção, quanto o preço alto da mercadoria que nos forneciam, os produtos industrializados. Hoje tudo isso é feito pela associação e pela cooperativa dos próprios moradores da reserva.
Clima em Revista – Em que a criação da Resex foi importante nesse processo?
Manoel da Cunha - A criação da Reserva foi fundamental. A primeira grande vantagem foi a liberdade daquela vida que a gente vivia de humilhação e de alta exploração. Quanto mais o freguês produzia, mais tinha débito, porque o débito te levava a produzir mais para pagar seu débito. Virava uma bola de neve. Outra coisa que era muito ruim é que não deixavam que a gente plantasse para o sustento, porque com isso ganhavam duas vezes: não queriam que você plantasse porque você produziria mais borracha e consumiria tudo do barracão. Era uma forma de consumir tudo por um valor muito alto. A Reserva trouxe imediatamente essa liberdade. Através dos recursos de apoio à Resex, conseguimos nos fortalecer comunitariamente e criamos uma associação, que trabalha o lado social das comunidades, e uma cooperativa, que cuida do processo produtivo de compra e venda dos produtos. Temos uma organização forte que traz mercadoria e leva a produção. Temos várias cantinas pelo meio da Resex, que dão acesso à mercadoria pelo mesmo preço que ela está no supermercado na cidade. A Reserva foi uma porta de entrada de coisas boas. Costumo dizer que o processo de reserva extrativista é como um doce muito gostoso que você coloca em uma bandeja e vai vender na rua. Todo mundo quer colaborar, todo mundo quer contribuir e conhecer melhor a proposta e isso acaba facilitando as dificuldades que a comunidade tinha antes de ser reserva. É uma experiência aqui, um projeto-piloto ali e uma hora o projeto-piloto está dando certo, como é o caso dos óleos no Médio Juruá. Antes, tínhamos casinhas de palha, onde no máximo havia uma parede no meio, que dividia a sala do quarto; na cozinha, tinha umas duas panelas, uma que cozinhava para os meninos menores e outra para os maiores. Hoje está todo mundo numa casa digna, numa casinha pintada, onde tem quarto para sua família inteira separado, tem uma cozinha com fogão a gás, uma sala, muitas com televisão e antena parabólica, um aparelho de som para a família. Porque quem mora na floresta também tem desejos e direito de ver o mundo lá fora, pelo menos pela televisão.
Clima em Revista - Quanto da floresta da Resex do Médio Juruá está preservada?
Manoel da Cunha - Na Médio Juruá, temos a área de uso e a área de preservação permanente. Como a Reserva é numa margem de rio, temos 10 quilômetros de área de uso, onde a comunidade caça, tira açaí, planta, mas na maior parte da Reserva, nunca foi gente, não se sabe nem o que tem lá. No total, a Reserva tem em torno de 1% de floresta degradada, que são as roças comunitárias que estão ao fundo da comunidade, onde a gente faz um rodízio. Quem chega abre a primeira floresta e troca a cada três anos a floresta nativa, mas com três anos ela já virou floresta novamente, então não tem aumento do desmatamento. Toda comunidade tem sua área de produção agrícola e faz o manejo da capoeira e, como temos um solo muito fértil, isso propicia fazer uma boa lavoura. Em torno de 10% da Reserva, é a área total de uso, incluindo as áreas de coleta de látex e sementes. Noventa por cento é área de preservação intocável. Costumo dizer que não há necessidade de ficar criando reserva de proteção integral, porque as UCs de uso também fazem esse papel de proteger, com mais garantia, porque tem as populações na frente que não deixam ninguém entrar. Estamos guardando.
Clima em Revista - Mesmo estando tão isolados, como vocês estão sentindo as mudanças climáticas?
Manoel de Cunha - Temos três coisas que já nos atingem diretamente. Primeiro são as grandes secas e as grandes cheias. No Rio Juruá, três municípios passaram este ano por calamidade pública, quase 100% das casas nas margens com o soalho coberto. Isso apesar das casas serem palafitas, com 1,5 metro do que chamamos barrote, que é a garantia (historicamente sabemos até onde a água do rio vai e botamos o soalho mais alto). Mas o desequilíbrio causado pelas mudanças climáticas fez a gente perder esse controle. As secas, no entanto, têm prejudicado ainda mais do que as cheias, que pelo menos não impedem a chegada de medicamentos, dos produtos industrializado nem da comunidade escoar sua produção. No caso da seca, já chegamos a ficar, em 2005, com comunidades isoladas por dois meses, só helicóptero chegava lá, porque não tinha outro jeito. Nas duas últimas eleições, tivemos municípios que não tiveram como trazer eleitor até o centro urbano para exercer seu direito de cidadão, que é votar. A segunda coisa é a friagem, fenômeno da natureza que ocorre em parte da Amazônia, muito importante na nossa região. Os seringueiros aprenderam os costumes dos índios e um deles era a questão da friagem. Só temos duas estações (o inverno e o verão) e a friagem marca que vai acabar a chuvarada do inverno e vai começar o verão. A gente aproveitava esse tempo para fazer o plantio nas margens do rio, porque ficavam alguns dias sem sol, fazendo frio, e ficava bom de plantar porque a frieza da terra facilitava a germinação da semente e os insetos ficavam agasalhados na floresta e não atacavam as plantas. Caía friagem, todo mundo fazia seu plantio de batata-doce, feijão, melancia. Agora ficamos esperando chegar a friagem para fazer o plantio e, às vezes, não chega. Já temos três anos praticamente sem friagem. Elas foram ficando mais fracas, com tempo mais curto. Antes duravam até cinco dias, foram durando três dias, dois dias e agora já temos três anos praticamente sem. Nubla, mas não esfria, não corre o vento. A terceira coisa é que, como a seca está se estendendo um pouco mais, a floração das árvores está atrasando. Temos muitas espécies de árvores da floresta que floravam em outubro, como a andiroba e o cacau nativo, mas precisavam das primeiras chuvas fortes do final da seca, em outubro. Estamos há cinco anos no Médio Juruá sem uma safra boa de andiroba. As pessoas mais antigas, como meu pai, de 73 anos, e outras pessoas que nasceram e se criaram nessa atividade de seringa e conhecem a floresta mais do que tudo, afirmam que as chuvas que vinham em outubro estão vindo em novembro, o solo está muito seco e essas plantas quando floram não têm força para fazer uma boa vingação. Isso tem atingido financeiramente a comunidade. Já chegamos a produzir 26 toneladas, em 2000 e 2002, e agora, mesmo ampliando a área de produção, estamos chegando a apenas 13 a 14 toneladas.
Clima em Revista - Você acredita que os mecanismos de compensação que possam ser criados por conta das mudanças climáticas podem ajudar a minimizar esses prejuízos?
Manoel da Cunha - Pelo menos minimizar. A luta da Aliança dos Povos da Floresta, do Conselho dos Seringueiros e demais instituições é no sentido de dizer que nós, populações da floresta, somos as mais vulneráveis às mudanças climáticas. Quem mora num centro urbano, se ficar muito quente, vai aumentar a potência do ar condicionado, vai se adaptar. Quanto a feirinha de perto da sua casa não tiver mais fruta, porque era da região, o supermercado que importa terá, e a pessoa vai continuar comprando suas frutas. Mas para nós, o meio ambiente é a nossa vida. É o nosso emprego, de onde vem nosso dinheiro, é o nosso açougue, é o nosso supermercado, é a nossa feira, é tudo. Na hora que isso se desequilibrar, de onde vamos tirar nosso sustento? Quanto não conseguirmos mais trafegar entre as comunidades e os centros urbanos, como vamos viver até que se pense um novo modelo de escoamento da produção? As mudanças climáticas acontecem no ambiente. Como o ambiente é nossa vida, somos diretamente atingidos. Por isso estamos nessa batalha e temos discutido há mais de um ano e meio na Amazônia o assunto com a Aliança dos Povos da Floresta. Mas começamos a sentir que não vale a pena perder tanto tempo para discutir uma política para um bioma de um país, já que as questões são mundiais. Por isso resolvermos ampliar essas discussões e fazer um fórum que a gente possa agregar outros pensamentos e outras populações também atingidas. Assim nasceu o workshop Mudanças Climáticas e Povos da Floresta, que reuniu representantes de 13 países em Manaus, no início de abril. O mais interessante é que todos eles “falam a mesma língua”, estão sofrendo também. Não é um problema só da Amazônia. Com todos que conversei, ouvi sobre seca do rio, perda de peixes. A preocupação é legítima. Sabemos que mudança climática não é uma dor de cabeça, que é só tomar uma aspirina e daqui a uma hora ela acalmou. Mesmo que todos comecem fazer algo para combater, vamos levar 50, 100 anos para ver resultados positivos. Quanto mais cedo começarmos a discutir, mais cedo os resultados chegarão.
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