Clima e Floresta

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Lisa Gunn: Consumidor precisa de condições para fazer escolhas

Maura Campanili

Lisa Gunn, coordenadora executiva do Idec. (Foto: Divulgação)

Mais do que mudar os padrões de consumo da população para diminuir os impactos do efeito estufa, o Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) trabalha para que os consumidores tenham condições concretas de fazer essa escolha, através de mecanismos como informação qualificada sobre origem dos produtos e opções de alternativas sustentáveis. Segundo Lisa Gunn, coordenadora executiva do Instituto, “cada um precisa tornar-se um ‘consumidor cidadão’ e sair do âmbito de consumo individual para coletivo”. Mas, para tanto, necessita saber se a carne que compra no supermercado foi produzia a partir do desmatamento na Amazônia e contar com um transporte coletivo aceitável para que deixe seu automóvel em casa. E não ficar esperando que tudo isso caia do céu.

Clima em Revista – O que a agenda de trabalho do Idec, voltada para a defesa do consumidor, tem a ver com as questões ambientais?

Lisa Gunn –
O Instituto acordou para as questões socioambientais na década de 1990, quando a Eco 92 deixou claro que problemas ambientais estavam ligados ao padrão de consumo. Entendemos que era nosso papel abordar o assunto e, no final dos anos 90, revisamos nossa missão incluindo a promoção do consumo sustentável, com o desafio de incorporar o tema nas diferentes estratégias do Idec. Vemos a questão como um tripé. Em primeiro lugar, é preciso conscientizar o consumidor, para que tenha informação e capacidade de mudar hábitos de consumo. Por outro lado, lidamos diretamente com o setor privado, realizando testes comparativos de produtos e serviços, analisando normas vigentes, considerando necessidade de melhorias nas normas. Em terceiro lugar, é preciso ressaltar papel do Estado como regulador e promotor de políticas públicas. Passamos a incorporar a questão socioambiental em testes, mas faltam informações e metodologia, já que a análise de ciclo de vida é uma metodologia ainda muito cara. Assim, começamos a avaliar as empresas, o que acabou sendo o trabalho do Idec em responsabilidade socioambiental. No início, o foco das empresas era para ações externas à sua atividade e usada como marketing. Sem desmerecer a filantropia, queríamos mostrar que precisavam de responsabilidade no negócio. Assim, além de teste comparativo de produtos e serviços, avaliamos o discurso de responsabilidade socioambiental das empresas, quais são as políticas, como comunicam os diversos públicos. Queremos mostrar para o consumidor que precisa ver mais do que preço e qualidade e levar em conta a postura da empresa em relação aos aspectos socioambientais.

Clima em Revista – O Idec, junto com o Vitae Civilis, mantêm há um ano a campanha ‘Mude o Consumo para Não Mudar o Clima’. Por que e como o tema mudanças climáticas foi incorporado nas ações do Instituto?

Lisa Gunn -
Já acompanhávamos as discussões sobre mudanças climáticas há algum tempo e ficamos contentes quando o tema explodiu na mídia, pois assim chegou à opinião pública. Com isso, as pessoas deixam de achar que impacto ambiental é para gerações futuras e passam e ver a questão em seu dia a dia. O que nos incomodava era que a mídia não explorava a relação direta entre mudança climática e nossos hábitos de consumo, não ficava claro o papel do consumidor nessa história. Também nos preocupava a abordagem da compensação, que às vezes dá a impressão que é só plantar árvores para compensar e está tudo bem. Faltava um tratamento educativo. Nosso trabalho tem como foco a diminuição do consumo. Temos que promover ainda um aumento de consumo para grande parte da população que precisa ter vida digna e diminuir da pequena parcela que consome muito. Mas o modelo de consumo (desejo) é por um padrão perdulário de consumo, que precisa ser criticado. Foi aí que pensamos em uma campanha com o tema mude o consumo para não mudar o clima.

Clima em Revista – Como foi desenvolvida a campanha e qual é o seu principal foco?

Lisa Gunn -
Procuramos o Vitae Civilis para ter aporte técnico sobre o tema, que não tínhamos no Idec. Para eles, também foi interessante, pois queriam chegar ao consumidor, já que tinham trabalho político no nível nacional e internacional. Aí surgiu a ideia de fazer uma calculadora que permitisse ao consumidor visualizar seu impacto no site da campanha (www.climaeconsumo.org.br). Na primeira etapa, o consumidor indica aspectos do seu consumo (possui carros, qual combustível utiliza, quantas pessoas moram na casa, hábitos de consumo). A partir dessa fotografia, a calculadora mostra quanto a pessoa emite de gases de efeito estufa. Mas o próximo passo foge do normal, já que a maior parte de ferramentas desse tipo fala em árvores. A nossa segunda etapa é o que cada um está disposto a mudar para diminuir a emissão: Quantos dias está disposto a andar sem carro? De quantas viagens de avião vai abrir mão? Quantas lâmpadas vai substituir? O objetivo é mostrar as alterações concretas nos hábitos. Além de dicas para o consumidor diminuir hábitos de consumo.

Clima em Revista – Nesse sentido, o papel do consumidor seria ter metas de emissões individuais?

Lisa Gunn –
O papel do consumidor é mais do que isso, é ser um consumidor cidadão. Sair do âmbito do consumo individual para o coletivo. Por exemplo, fizemos na campanha cartões postais para ele entregar no supermercado (para as principais redes e um geral). Nele, há uma foto de desmatamento e uma mensagem para o gerente do supermercado: gostaria que vocês tivessem um sistema de rastreabilidade para a carne vendida. O objetivo é mostrar que o consumidor cidadão tem papel ativista. Os cartões postais estão disponíveis em versões impressa e no site, para impressão e envio eletrônico.

Clima em Revista – Por que a atenção especial ao consumo de carne?

Lisa Gunn -
Fomos atrás da principal fonte de emissões de gases de efeito estufa no Brasil e vimos que cerca de 70% eram de desmatamento e queimadas. E quais são os vetores? O principal é a expansão agrícola empurrando a pecuária para Amazônia. E 80% desse gado é consumido no mercado interno. Por isso acreditamos que tínhamos que tocar na questão do consumo de carne. Esse é o dilema do consumidor: ele é preocupado com Amazônia, mas não faz relação quando vai comprar carne para o churrasco de fim de semana. Queríamos mostrar ao consumidor que ele poderia estar sendo cúmplice desse processo. Em primeiro lugar, questionamos as principais redes de supermercado se tinham práticas para garantir que a carne que comercializavam não provinha de áreas de desmatamento na Amazônia e as respostas foram deficientes. Disseram haver cláusulas para saber se o fornecedor segue a legislação, o que é pouco, pois cláusula sem fiscalização não significa muito. Alguém está comendo essa carne. Estamos no início de um diálogo com o varejo. As empresas dizem que fiscalizar é papel do governo, o que não questionamos, mas é insuficiente. Todos têm o seu papel: consumidor, empresa e poder público. A responsabilidade sobre cadeia produtiva deve crescer, não dá para as empresas se eximirem de sua corresponsabilidade. Na questão da carne, esperamos estar em convergência com outras instituições que trabalham nessa linha, como IPAM, Amigos da Terra, Greenpeace, WWF etc. Temos que ter sistema de rastreabilidade. Hoje a carne tem o SIF (Sistema Inspeção Federal) de frigoríficos, mas o sistema do governo é sectário e voltado para exportação. Precisamos de sistema ambiental e também para brasileiros. No momento, estamos fazendo uma pesquisa com os frigoríficos, mas de sete, só um respondeu. Estamos também acompanhando o grupo de trabalho sobre pecuária sustentável, uma iniciativa da Corporação Financeira Internacional (IFC, na sigla em inglês), o braço do Banco Mundial que financia a iniciativa privada. Estão debatendo com frigoríficos aspectos socioambientais do setor. Achamos que é uma resposta à demanda do movimento ambientalista de haver condicionantes socioambientais para os financiamentos.

Clima em Revista – Quais as principais dificuldades que o cidadão brasileiro enfrenta para mudar seus hábitos de consumo e, consequentemente, suas emissões?

Lisa Gunn -
Há restrições concretas às mudanças. Em alguns casos, falta informação. Em outros, há alternativas, mas são inacessíveis, por questões financeiras, como por exemplo o consumo de produtos orgânicos. Seria necessário haver mais feiras de orgânicos, onde o preço é menor do que no supermercado, já que as empresas entendem o setor como um nicho de mercado. Se o problema é de todos, as alternativas deveriam ser acessíveis para todos. Às vezes, porém, a alternativa não existe, como é o caso da questão de transporte no Brasil. Em grande parte das cidades, deixar o carro em casa e ir trabalhar de transporte coletivo ou de bicicleta é para ativistas radicais. Andar de bicicleta em São Paulo é perigoso. Precisam ser construídas condições para mudanças. O consumidor hoje pode mudar, mas de forma restrita. A responsabilidade não é somente dele se quisermos sair do esquema ‘desligue a torneira e apague a luz’, que é muito pouco. Quantos municípios no Brasil têm coleta seletiva? A maior parte não tem nem aterro.

Saiba Mais: Idec

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