Clima e Floresta
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Indústria britânica propõe economia de baixo carbono
Maura Campanili
(esqueda para direita) Martin Broughton, presidente da CBI; John Hutton, ministro Britânico para Negócios, Empreendimentos e Reforma Regulatória; Peter Collecott, embaixador Britânico; e Martin Raven, cônsul-geral Britânico em São Paulo.A Confederação das Indústrias Britânicas (CBI, na sigla em inglês) lançou no Brasil, no início de setembro, o relatório “Mudanças Climáticas: Um Assunto de Todos”, uma avaliação dos benefícios econômicos e custos de diferentes opções para reduzir as emissões de gases de efeito estufa no Reino Unido até 2030, para que o país consiga atingir a meta do governo de redução de 60% das emissões em 2050 em relação aos níveis de 1990. Apresentado em 2007 no Reino Unido, o relatório já foi divulgado também na Índia, China e Bruxelas e traduzido em diferentes línguas (às quais agora se soma o português).
Segundo Martin Brougthton, presidente da CBI, a tradução para o português foi realizada com anuência da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e tem o objetivo de conscientizar o setor empresarial. “Mudança climática é um assunto global. Se apenas a Inglaterra fizer alguma coisa não vai fazer diferença e, para a América Latina entrar no jogo, o Brasil tem que capitanear”, disse durante o lançamento, realizado no Consulado Britânico em São Paulo, com a presença do ministro de Negócios, Empreendimentos e Reforma Regulatória do Reino Unido, John Hutton.
O documento foi elaborado durante dez meses pelo Grupo de Trabalho sobre Mudanças Climáticas da CBI, a partir de pesquisa encomendada à consultoria McKinsey. Hoje transformado em conselho, o grupo de trabalho reúne 18 das maiores empresas britânicas, entre as quais a British Telecom (BT), Shell, British Airways e Tesco, que emitem aproximadamente 370 milhões de toneladas de CO2, empregam quase 2 milhões de pessoas ao redor do mundo e são responsáveis por 1% da pegada de carbono mundial.
A principal conclusão do relatório é que é preciso aumentar o ritmo e a escala da implementação de mudanças substanciais no funcionamento da economia britânica para que as metas sejam atingidas. Reconhece ainda que é preciso uma ação global, convocando todos os países a formularem suas agendas de mudanças climáticas, com envolvimento de governos, empresas e consumidores. Para a CBI, só com a ação conjunta desses atores será possível adotar medidas de alcance e escala necessários para a construção de uma economia de baixo carbono. Nesse sentido, os consumidores (responsáveis por 60% das emissões no Reino Unido) são vistos como a mola propulsora das mudanças; o governo, como responsável por criar o ambiente propício às mudanças e trabalhar com outros países para estabelecer acordos internacionais de redução de emissões; e o setor empresarial como investidor na mudança.
Diagnóstico e compromissos
Segundo o documento, os principais setores para redução de emissão de carbono no Reino Unido são: habitação (31%), principalmente por meio da melhoria das construções residenciais; energético (29%), com melhor aproveitamento de energia eólica, adoção da captura e armazenamento de carbono em usinas termelétricas a gás e carvão e construção de novas usinas nucleares; transporte (24%), por meio da adoção de motores mais eficientes e novas tecnologias, assim como a utilização de novas fontes de energia; e indústria (17%), com melhorias nos processos de produção. Em 2030, quase 60% das reduções das emissões devem ter sua origem em um consumo de energia mais eficiente em casa, nas empresas e nos transportes, e o restante deve vir de grandes reduções nas emissões de carbono provenientes do fornecimento de energia, como eletricidade e calor, e transporte.
O relatório sugere que o governo britânico priorize investimentos em pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias e proporcione incentivos, regulamentos e estruturas tributárias para a construção de uma economia de baixo carbono. Também indica a necessidade de ampliar os incentivos à população, especialmente os consumidores, que precisam de informações confiáveis e estímulos para fazer investimentos corretos na redução de emissão de carbono; o estabelecimento de um preço real e de longo prazo para o carbono num acordo pós-2012; e a introdução do carbono como parte do DNA corporativo, especialmente por meio de medição das pegadas de carbono, adoção de eficiência energética nas empresas, particularmente em transporte e instalações.
Segundo a pesquisa da McKinsey, em 2020, o custo para economizar uma tonelada de CO2 no Reino Unido será de 60 a 90 euros, caindo para 40 euros em 2030, devido à redução do custo do desenvolvimento de novas tecnologias. Além de custos, o trabalho aponta oportunidades. Para pequenas e médias empresas, as principais oportunidades estão concentradas em cinco áreas-chave: edifícios comerciais, energia elétrica renovável, combustível renovável para transporte rodoviário, eficiência energética doméstica e habitação. Essas iniciativas poderiam criar mercados da ordem de quase 3 bilhões de libras esterlinas, até 2010, no Reino Unido.
A indústria também apresenta uma série de compromissos para a construção de uma economia de carbono (inclusive com metas específicas para cada uma das empresas do grupo de trabalho). Entre as principais estão: desenvolvimento de novos produtos e serviços, que permitirão que todos os lares britânicos cortem suas emissões pela metade até 2020; trabalho com os dois milhões de funcionários, para ajudá-los a reduzir suas emissões de gases de efeito estufa no trabalho e em casa; promoção de um padrão universal de elaboração e apresentação de relatórios sobre emissões, baseado no Protocolo GHG (metodologia internacional que permite a elaboração de inventários de gases de efeito estufa); realização de auditorias e redução das emissões dos veículos e edifícios; investimento, ao longo de três anos, na consolidação do trabalho que a CBI vem realizando na área de mudanças climáticas, no Reino Unido e no exterior.
Indústria brasileira
Presente ao lançamento do relatório, José Augusto Coelho Fernandes, diretor-executivo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), disse que responsabilidade comum e diferenciada não significa inação e que o Brasil já vem desenvolvendo ações em relação às mudanças climáticas. No entanto, aponta que no país a prioridade é o combate ao desmatamento, já que o Brasil é um caso especial, onde a indústria já tem um baixo uso de carbono e sua prioridade é a busca de eficiência energética. “O Brasil possui hoje 45% de sua energia renovável, enquanto a meta da União Européia para 2020 é de 20%. As emissões brasileiras industriais, residenciais e de transporte não chegam a 30% do total das emissões do país”, disse.
Segundo Fernandes, no entanto, a indústria está se movendo, através da realização de estudos e diagnósticos e com ações de sensibilização e eficiência energética, entre outros. “Treinamos cerca de 600 empresas para se beneficiarem do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL)”, disse. “Embora as estratégias das indústrias brasileiras e britânicas sejam diferentes por conta da matriz energética, há pontos comuns, como a disposição de enfrentar o problema, buscar as oportunidades, buscar regras e regulações, investir na eficiência energética, na educação do consumidor e na difusão de tecnologias e na internalização da questão no DNA das empresas”.
A coordenadora do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), Marina Grossi, lembrou iniciativas como o Pacto de Ação em Defesa do Clima, assinado em 2007 por empresas como a Alcoa e Petrobras, e entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Greenpeace e WWF, que estabelece metas voluntárias de redução de gases de efeito estufa. Citou, ainda, a iniciativa do CEBDS, em parceira com a Fundação Getúlio Vargas e o Ministério do Meio Ambiente, de trazer o GHG Protocol para a realidade brasileira, adaptando questões como o setor florestal.
SAIBA MAIS: Mudanças climáticas: um assunto de todos (em português)
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