Clima e Floresta

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Cientistas queimam 100 ha de floresta no Mato Grosso

Jaime Gesisky

Os cientistas cercam-se de todo o cuidado para garantir a segurança dos pesquisadores e suas equipes. (Foto: IPAM)

Os impactos causados pelo fogo na vegetação da Amazônia são pouco conhecidos, apesar de previsões sugerirem que os incêndios florestais se tornarão ainda mais frequentes e mais intensos no futuro. Para conhecer melhor os reais impactos do fogo sobre a floresta, cientistas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e Woods Hole Research Center (WHRC) desenvolvem desde 2004 no Mato Grosso o projeto Savanização. Trata-se do maior experimento com fogo controlado em áreas tropicais do mundo. Nesse projeto, os pesquisadores querem saber qual a intensidade e a frequência de incêndios que poderiam causar transformações irreversíveis em florestas da Amazônia.

Como parte do experimento, os cientistas ligados ao projeto realizaram entre os dias 19 e 20 de agosto a última etapa de uma queima controlada em uma área de 100 hectares de floresta na transição Cerrado-Amazônia, no município de Querência, no nordeste do estado.

O experimento com o uso do fogo ocorre desde 2004 em uma área total de 150 hectares na fazenda Tanguro, no nordeste do Mato Grosso. A área experimental foi dividida em três parcelas de 50 hectares cada. Em uma delas, os cientistas cuidam para que não haja nenhum tipo de queimada. É o que eles chamam de ‘área de controle’ e que servirá de parâmetro para comparações futuras. Outros 50 hectares são queimados somente a cada três anos. Os 50 hectares restantes são queimados anualmente para a obtenção dos dados para a pesquisa. Um hectare corresponde, em média, a um campo de futebol.

Antes da queima, os pesquisadores coletam diversos tipos de informações como espécies de árvores, seu tamanho e abundância, estrutura da floresta (abertura de copa), número de plântulas, medidas do material combustível no chão (galhos e folhas) e também sobre alguns grupos de animais (insetos e pequenos mamíferos).

Após o fogo, todas essas informações são colhidas novamente para que se possa comparar de que maneira o ambiente reage ao fogo. A temperatura e a umidade local também são monitoradas antes e depois do incêndio para detectar mudanças no microclima da floresta. A umidade de solo é medida para verificar como essas alterações estão afetando a disponibilidade de água.

“Para entender como o fogo afeta a vegetação amazônica, é preciso queimar áreas de florestas com intensidade e frequência diferentes”, explica o pesquisador Oswaldo de Carvalho Júnior, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Segundo ele, a falta de dados científicos nessa área acontece porque raramente é possível ter informações sistemáticas antes da ocorrência da queimada, impossibilitando o conhecimento sobre o comportamento do fogo, bem como os seus efeitos à estrutura e à dinâmica das florestas.

No caso do projeto Savanização, é possível antecipar-se e montar uma complexa estrutura tecnológica para a obtenção dos dados. Isso inclui diversos tipos de sensores para medir a temperatura, a umidade na área e o fluxo da água no solo. Alguns desses sensores são instalados em poços de até 10 metros de profundidade. São utilizados também equipamentos medem a cobertura do dossel da floresta. Coletores especiais de folhas e sementes servem para checar a produtividade da floresta.

Na área experimental, foram inventariadas mais de 10 mil árvores. Além do acompanhamento da regeneração e mortalidade de árvores, os parâmetros de abertura do dossel, crescimento das árvores e microclima são mensurados ao longo dos anos.

Resultados

De acordo com Jennifer Balch, pesquisadora do National Center for Ecological Analysis and Sinthesys (NCEAS), da Universidade da Califórnia, os resultados preliminares mostram que as florestas de transição são extremamente vulneráveis a incêndios recorrentes. A mortalidade de árvores e cipós aumentou entre 80% e 120%, respectivamente, em relação à área de controle, conforme as observações dos cientistas na área do projeto. Além disso, eles concluíram que os incêndios florestais diminuem a quantidade de espécies em 50% em relação a florestas não afetadas pelo fogo. Estas áreas, segundo Balch, tornam-se mais suscetíveis à invasão de gramíneas não nativas, dificultando a regeneração natural da vegetação. Além disso, um terço de toda a biomassa viva da floresta é perdida após as primeiras queimadas, tornando uma grande ameaça para o estoque de carbono armazenado nestas florestas.

Os resultados apontam ainda que as florestas de transição podem ser relativamente resistentes a incêndios florestais de baixa intensidade, mas não a incêndios recorrentes de maior intensidade. Em poucos anos de experimento, os fogos transformaram a floresta em um sistema altamente degradado devido ao aumento na mortalidade de árvores. O mais surpreendente foi o modo pelo qual essa transformação ocorreu, de uma maneira não linear. “Observamos aumentos drásticos na mortalidade de árvores grandes somente após os fogos conduzidos durante a seca de 2007”, informa o pesquisador Paulo Brando, do IPAM. Isso indica que secas mais intensas e frequentes previstas para a região terão graves consequências na dinâmica dessas florestas.

O local do experimento

A fazenda onde se dá o experimento científico pertence ao grupo André Maggi, apoiador do projeto. A gleba tem 82 mil hectares e sua principal atividade produtiva é o cultivo de soja. O experimento faz divisa com uma estrada vicinal e uma lavoura. Para realizar a queima controlada, os cientistas cercam-se de todo o cuidado para garantir a segurança dos pesquisadores e suas equipes como também para que o fogo não escape para áreas adjacentes. O experimento tem licença dos órgãos ambientais do estado. Inserida no Arco do Desmatamento, a região é conhecida pelas elevadas taxas de desmatamento e ocorrência frequente de incêndios de grandes proporções.

Os parceiros técnicos do projeto são a Universidade Estadual do Mato Grosso, ESALQ/USP, Museu Paraense Emilio Goeldi, Universidade Federal do Pará, University of Florida, Yale University e RainFor – Oxford University

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