Clima e Floresta

Home » Edição 14 - 15/09/2009 » 133

Baixo carbono: solução está na tecnologia

Maura Campanili

Criar uma estrutura de pesquisa e ensino que privilegie a indústria da biotecnologia e com governança, “uma qualidade política que nunca tivemos”, é o caminho para o Brasil chegar a uma economia de baixo carbono, segundo o sociólogo Sérgio Abranches, colunista de meio ambiente de vários veículos de comunicação.

Para Abranches, que proferiu a palestra “O Brasil na Transição ao Baixo Carbono”, na Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA/USP), dia 19 de agosto, a tese da sociedade de risco é mais verdadeira neste início de século XXI, por conta das mudanças climáticas, do que do século XX, quando os problemas eram fenômenos socioeconômicos e políticos. “Resolver o risco de uma bomba atômica era mais fácil do que a bomba climática, pois estamos lidando com acontecimentos de alta probabilidade de acontecerem e dos quais não temos certeza de tempo e intensidade”, disse.

Segundo o especialista, a humanidade nunca teve um desafio desse tamanho, um problema planetário, que precisa de ações locais com consequências globais. Para Abranches, as soluções ainda não estão postas, pois ainda estamos analisando um problema do século XXI com o olhar do século XX. “Os cenários do IPCC são um exemplo disso”, afirmou. “A continuação do cenário atual, como previram, é a mais improvável, pois nos levará à tragédia ou a soluções com preços muito altos a pagar. Minha aposta é que na segunda década deste século, ele finalmente se iniciará, com as revoluções científicas e tecnológicas, quando teremos capacidades como inteligência artificial e possibilidade de microinterferência em assuntos como saúde, agricultura etc.”

Tempo curto

O grande problema desse diagnóstico é que o tempo está ficando curto: se tudo continuar como está, ameaças como a alteração no regime de monções da Índia, o desaparecimento da Amazônia e a maior intensidade dos furacões se tornarão realidade. Por isso, “as primeiras decisões terão que ser tomadas com a tecnologia e os políticos que temos hoje”, defende o sociólogo.

Nesse cenário, as decisões que serão tomadas durante a Conferência do Clima de Copenhague (COP 15), em dezembro próximo, são a esperança de se iniciar o processo, com ações como o fluxo tecnológico entre as nações e incentivos para novas tecnologias. Para Abranches, a institucionalização política do clima acontece numa situação de muita interdependência entre nações culturalmente muito diferentes, incertezas sobre o problema e onde todos os países podem vetar. “O único caminho é um acordo de cavalheiros entre os maiores emissores mundiais.” Nessa conta, devem entrar os países da Europa, Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália, Indonésia e os países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China).

Paradoxal e conservador

Com uma sociedade de ponta e uma medieval convivendo, o Brasil é considerado pelo especialista como um paradoxo. Entra nas negociações do clima de uma forma muito conservadora, enquanto é um dos países que tem mais a se beneficiar com o desenvolvimento através da descarbonização, por sua matriz energética relativamente limpa (através de hidrelétricas e combustíveis renováveis). Por outro lado, privilegia as rodovias em seu plano de infraestrutura (PAC), enquanto estudos mostram que estas perdem a uma taxa de 10 para 1 de ferrovias ou hidrovias em relação ao consumo de combustíveis, e privilegia o agronegócio na Amazônia, atividade que leva ao desmatamento.

Para o especialista, o país deveria investir em uma logística sustentável e em indústrias que mantenham a floresta em pé na Amazônia. “O Brasil já tem a base de um sistema de biotecnologia”, diz. Segundo Abranches, mecanismos de Redução de Emissões do Desmatamento e Degradação (REDD) podem trazer o financiamento adequado para a educação e criação da sociedade tecnológica na Amazônica. “O governo brasileiro ficar contra isso é um tiro no pé”.

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