Clima e Floresta

Home » Edição 23 - 30/07/2010 » 213

Acre em estado de alerta contra o fogo

Maria Emília Coelho

BR-317, estrada que liga Rio Branco à fronteira do Peru. (Foto: Maria Emília Coelho)

É verão na Amazônia. Tempo de curtir praias de rio e de comer ingá direto do pé. As cigarras cantam com mais força e as flores das gigantes samaúmas colorem o azulado céu. Mas a época também é de alerta. Durante o período de seca da região amazônica, a interação entre queimadas e mudanças climáticas cria um perigoso ciclo vicioso que ameaça a população e o equilíbrio da maior floresta tropical do planeta.

Em Rio Branco, capital do Acre, instituições ligadas à defesa ambiental estão preocupadas com as condições do clima desta temporada de verão. Pois se continuar a falta de chuva, a baixa umidade do ar e os ventos fortes, qualquer queimada, seja urbana ou rural, poderá se transformar em um incêndio fora de controle.

Diante deste quadro, no último dia 16, a Comissão Estadual de Gestão de Riscos Ambientais, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema) do Acre, decidiu convocar o Grupo de Trabalho que faz parte da Câmara de Queimadas Descontroladas, Incêndios Florestais, Secas Severas e Desmatamento para uma reunião. O objetivo: discutir a problemática da combinação fogo e clima.

Um dos especialistas em mudanças climáticas no Brasil, Irving Foster Brown foi convidado pela Sema do Acre para participar do evento. O pesquisador, do The Woods Hole Research Center e da Universidade Federal do Acre, apresentou um estudo que utiliza dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Suas previsões indicam que o leste do Estado é uma região com alta incidência de focos de calor, ou seja, enquadrada como de alto risco e crítica para incêndios descontrolados.

O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) também esteve presente na reunião, que elaborou um diagnóstico sobre a questão das queimadas no estado. “O nosso papel é o da pesquisa, do desenvolvimento de um modelo de prevenção de incêndios florestais em um trabalho em conjunto com os técnicos das secretarias do estado e do município”, explica a engenheira florestal Elsa Mendoza.

Para a pesquisadora e coordenadora do IPAM no Acre, o importante é sensibilizar a população, já que a prática da queimada é uma questão cultural: “Temos que informar sobre os efeitos das mudanças do clima na Amazônia hoje, mas também propor alternativas. O IPAM, através do curso Bom Manejo de Fogo para Áreas de Agricultura Familiar, ensina técnicas de prevenção de fogo acidental para os produtores rurais da Amazônia”, explica Elsa.

O Ministério Público Estadual (MPE) também resolveu chamar a atenção dos acrianos para o tema. No dia 22 de jullho, representantes do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Rio Branco (Semeia), da Coordenadoria de Meio Ambiente do Ministério Público Estadual (MPE) e do Corpo de Bombeiros se reuniram para pedir a ajuda da população. “Queremos que cada cidadão seja um fiscal da sua rua, do seu bairro, porque não estamos em um cenário climático favorável”, alerta Meri Cristina, promotora de Meio Ambiente do MPE do Acre.

Em entrevista para as redes de televisão local, Arthur Leite, secretário de Meio Ambiente de Rio Branco, também fez o seu apelo: “Qualquer fogo de fundo de quintal, qualquer fagulha, pode provocar um desastre. Precisamos que a comunidade colabore e pare de queimar. Hoje, com essa questão climática, o risco é muito grande para todos nós”.

Ciclo vicioso

A queimada amazônica é a maior fonte de emissão de CO2 do Brasil, contribuindo para o efeito estufa e, consequentemente, para o desequilíbrio do clima da Terra. Por outro lado, as mudanças climáticas, em épocas de estiagem na Amazônia, propiciam condições ambientais ainda mais favoráveis à ação do fogo, pois aceleram a conversão da floresta tropical em um ecossistema mais pobre e seco, resultando em enormes emissões de dióxido de carbono ao longo do processo.

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